Tinha uns 7 ou 8 anos se muito. Os cabelos curtinhos caíam em espirais largas e suaves sobre sua nuca. Na ponta dos pés finos e pálidos, assistia com um olhar perdido o sol se pôr além do muro descascado, enquanto o vento fazia seu vestido dançar ao som da tarde, dos pássaros, dos grilos e de um assobio ao longe.Lá estava ele, sentado na espreguiçadeira, olhar sereno, sorriso largo, mãos trêmulas, joelhos - não sei por que razão - brilhantes. Entoava uma de suas canções, daquelas que não se ouve no rádio. Aos olhos infantis, sólido. Aos olhos crescidos, frágil.
Seu avô era um homem grande. Grande na simplicidade, no espírito, na paciência, na ternura e no tamanho. Não se lembrava de tê-lo visto de mau-humor em toda sua vida, mesmo quando contrariado. Quando acontecia, seu rosto ganhava traços de angústia e frustração, talvez porque soubesse, em seus momentos de lucidez, que já não era tão jovem quanto gostaria.
Ele percebia a velhice, o corpo fraco, o juízo às avessas aqui e acolá. Para seu desgosto, àquelas alturas, ninguém parecia levá-lo muito a sério e suas atitudes eram resumidas a "coisas da idade". Seu mundo também não tinha sons. Fazia alguns anos já que a surdez tomara seus ouvidos quase que por completo.
Aos poucos ele cedia. Mal de Alzheimer.
Foram necessários mais nove anos até que ele desse o braço a torcer, e a menina miúda, por quem ele tanto zelara e fizera sorrir, agora sentia o coração comprimido ao ver seu avô naquela cama de hospital. Será que ele entendia? Será que ele ME entenderia se eu dissesse... se ao menos eu lhe dissesse...
Não disse. O pobre velhinho se desligou do mundo. O tempo parou. E lá estava a menina, inútil, pequena de novo, tomada pelo vazio.
Depois de um ou dois dias sossegou. E só porque sabia que na vida algumas coisas são efêmeras e outras não. O corpo um dia cansa. O legado fica sempre. E isso bastava. Seu avô bem sabia disso ao fechar os olhos para enfim descansar em paz. E ela sabia de tudo isso porque a mesma expressão serena não a enganaria nunca, ainda que emoldurada sinistramente por um caixão.
*Te amo, vovô.
Por Rayanne Azevedo




Das coisas que eu nunca disse nem escrevi












